segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Destruição da Amazônia: só vai terminar quando desmatarmos tudo

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Vamos fazer que nem os países ricos. Só vamos parar de desmatar quando atingirmos destruição de quase 100% como foi o caso deles.  É por isso que eles alegam não desmatar nada hoje: não dá para desmatar mais que 100%!!! 

No nosso caso isso é um risco tremendo, por conta do que já sabemos de contribuição da Amazônia para o país todo.  Mas enquanto esse modelo continuar, não devemos esperar resultados diferentes.
Resultados diferentes só ocorrerão quando mudarmos o modelo.

Não só não mudamos o modelo, como reforçamos sua tendência atual suicida com nomes pomposos como Economia Verde, Economia do Meio Ambiente, Energia Limpa, Mecanismos de Desenvolvimento Limpo, Energia Nuclear Limpa, tudo com letra maiúscula mesmo simbolizando nomes próprios (essas idéias podem até ser usadas reconhecendo suas limitações, mas de nada adiantam sem uma revisão total do paradigma vigente). Não só não mudamos o modelo, como estamos pisando o pé no acelerador.  Existe uma quantidade gigantesca de atividades se sobrepondo não para resolver esse problema, mas porque aumentam o PIB, dentro da mesma lógica atual.

Isso porque mudar o modelo significa vencer interesses arraigados difíceis de serem vencidos.  Talvez e se tivermos sorte e o Permafrost permitir, um evento cataclísmico pode ter a força de acordar a todos e salvar o que resta.

Agora só dá para salvar o que restar.  Dos ecossistemas e da vida na Terra. 


Folha, Segunda-feira 15set14

LEÃO SERVA

Amazônia queima sem notícia

Inpe atrasa vários meses a divulgação da informação sobre desmatamento e só o faz por imposição legal
A divulgação em meio ao tiroteio eleitoral escondeu o resultado do monitoramento da destruição da floresta amazônica. Entre agosto de 2012 e julho de 2013, o desmatamento foi 29% maior do que nos 12 meses anteriores (2011-12), segundo o programa Prodes, que o Inpe devia ter divulgado em maio mas só revelou na última quarta, com quatro meses de atraso.
Outro projeto de acompanhamento da degradação da Amazônia, chamado Deter, mostra que em junho e julho de 2014 os alertas de desmatamento foram 9% maiores que no mesmo período de 2013. Os resultados combinados revelam que a degradação cresce há dois anos, revertendo a redução ocorrida entre 2008 e 2012. É notícia grave, mas a imprensa, distraída com a eleição, não viu.
O Inpe tem dois programas de avaliação da destruição de nossa maior floresta. O mais antigo, Prodes, é feito desde 1988, com imagens produzidas de agosto a julho de cada ano. Os resultados são divulgados em maio do ano seguinte, quando a destruição detectada já é irreversível. Por isso, em 2004, foi criado o Deter, menos preciso (ele detecta sinais de calor) mas com resultados mensais, serve para que os órgãos públicos possam agir enquanto um ataque à floresta está em curso.
Os dois sistemas fornecem à sociedade a informação para reagir contra a redução da floresta, que influencia o clima no resto do país e no continente. O ressecamento da Amazônia é determinante para a falta de chuvas em São Paulo, por exemplo, como explicou o cientista Philip Fearnside à Folha, em março (leia emhttp://folha.com/no1431548).
Este ano, os resultados dos dois programas foram divulgados com atrasos inéditos, com implicação eleitoral. O Prodes só saiu no dia 10 deste mês porque a ONG Instituto Socioambiental interpelou o Inpe com base na Lei de Acesso a Informação. Já o Deter atrasou dois meses.
O governo federal considera nevrálgica o dado do aumento da destruição da floresta, indicadora de que perdeu o controle do desmatamento. Por isso preferiria não vê-la publicada. Nunca antes na história deste país o relatório atrasou tanto, sem que algo de anômalo se abatesse sobre o Inpe.
A repercussão na eleição é óbvia: a redução do desflorestamento aconteceu no governo Lula quando Marina Silva era ministra do Meio Ambiente; com Dilma presidente, a tendência se inverteu. Agora as duas são candidatas. A preocupação com a floresta é maior entre eleitores das grandes cidades, onde Dilma tem mais rejeição e Marina, eleitorado maior.
É também relevante para compor o quadro (do desmatamento e da omissão dos dados) a informação de que o principal polo de destruição florestal é a região de Altamira, no Pará, onde é construída a hidrelétrica de Belo Monte. É o que mostra análise de vários dados do período 2010-13 (leia em http://goo.gl/vbgxHE).
A presidente Dilma se empenhou na aprovação da usina prometendo que ela não seria vetor de destruição ambiental massiva. Mas a destruição em torno da rodovia BR-163, que cruza a região, mostra que não há controles oficiais na área.
"Não há nada de novo sob o sol", diz o bíblico "Eclesiastes": na Amazônia, o desmatamento é a regra. O que se acrescenta --e que tampouco é novo-- é a sonegação de uma informação de grande interesse social, aparentemente motivada por seus impactos eleitorais. É grave. Quem se preocupa com a Amazônia deve abrir bem os olhos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Quando nossos interesses estão em foco...

Por favor se comentar deixe um email para contato.

...tendemos a menosprezar quaisquer problemas eventuais com as idéias mirabolantes que criamos.  A começar pela energia limpa, solar, etc.  Mas essa do shale gas é sensacional. Endeusada por todos como a grande salvação tecnológica global para ter a energia mais suja jamais imaginada, com o prêmio de poder contaminar terminantemente vastas reservas de água, a realidade começa a despontar.

Gerar mais energia (mesmo que limpa) ao invés de cortar o desperdício de energia (estimado em 73% pelo NEF) é uma das idéias mais anti-ecológicas e estúpidas que inventamos para alimentar outra idéia também estúpida: medir a nossa prosperidade pelo PIB...

Vide artigo do FT.  A necessidade de usar água para produzir shale gas/oil num momento em que esse recurso vital está se tornando escasso, bem como o risco de contaminação das águas do solo não parecem promissoras, para dizer o mínimo.

September 2, 2014 6:45 pm

Water shortages pose larger than expected threat to shale gas

By Pilita Clark in London and Ed Crooks in New YorkAuthor alerts

Shale oil rigs in Patagonia, Argentina
Water shortages pose a bigger threat to the global shale oil and gas industry than is widely realised, according to one of the most detailed studies to date of how much water is available at some of the world’s most promising shale sites.
More than a third of commercially viable shale gas deposits worldwide are in areas that are either dry or have water supply constraints, according to a study by the Washington DC-based World Resources Institute, an environmental think-tank.
The process of hydraulic fracturing, or fracking, used to extract shale gas can require 7m-23m litres of water, according to the study. The total varies from well to well.
Of the 20 countries with the largest shale gas resources, eight have deposits in areas that are arid or face high to extremely high water stress, including China, Algeria, Mexico and South Africa.
Similarly, eight of the 20 countries with the largest reserves of tight oil, including shale oil, have them in regions that are arid or with high water-stress, including China, Mexico and Pakistan.
Overall, 38 per cent of viable shale gas deposits worldwide are in areas where water supplies are a potential problem. Of those with the biggest shale reserves 40 per cent have severely limited freshwater supplies.
The boom in first gas and then oil production in the US has encouraged hopes that other countries with substantial shale reserves – some larger than those in the US – will be able to establish similar industries.
Paul Reig, who leads the WRI’s work mapping water availability, said the wide variation in conditions between different shale regions could be a significant challenge for development.
“If any company is basing its expectation of managing demand for water on its experience in the US, it could be in for a big surprise,” he said.
The WRI says its study is the first publicly open assessment of water availability at all potential commercial shale gas and tight oil resources worldwide.
In the US, hydraulic fracturing and drilling accounts for only a tiny percentage of all water withdrawals, but some shale reserves are in areas where competition for water is very high.
In Johnson County, Texas, for example, water withdrawals for shale gas development in 2008 were responsible for almost one third of the county’s freshwater use, the WRI study said.
Many shale companies use fresh water in their operations but the WRI study underlines the importance of looking at alternatives such as brackish or recycled water, said Dr Cal Cooper, director of special projects and emerging technologies at Apache Corporation, a US gas and oil group. “It’s important to find something other than just fresh water,” he said.
Melissa Stark, managing director for new energy at Accenture, the consultancy, said water use was slowing down shale developments in China. Efforts were under way to make more use of waste water from industry or homes.
In Argentina, she added, plans had been made to build pipelines to take water to the Vaca Muerta shale formation, but a chicken-and-egg problem emerged: the water pipeline would be worth building only if it were clear that production would be on a large scale. However, development would be difficult without the pipeline.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Development without Deforestation - Desenvolvimento sem Desmatamento

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Vai para minha lista de leitura num futuro espero não muito distante.

Espero que o texto tenha respondido a seguinte pergunta:

Não é possível desenvolvimento, nos moldes atuais, baseado em crescimento econômico eterno de estruturas e populações humanas, sem desmatamento desenfreado à luz do que já ocorre hoje em várias partes do mundo, com os últimos ataques indo para Ásia, África, Canadá e ainda Brasil, cuja pretensão do setor agrícola é expandir a fronteira agrícola na Amazônia, conforme afrouxamento de legislação pertinente e seminários promovidos pelo “agribusiness”.  Ou seja, tal resultado só é possível com uma revisão total do modelo e teoria econômicos que não enxergam nenhum limite ecológio ou físico para suas pretensões de expansão contínua.

Os únicos lugares sem desmatamento na Terra hoje são onde já se desmatou tudo que era possível e agora conseguem manter e reflorestar com matas secundárias com a ajuda do comércio global, transferindo produção suja para países sem compliance ambiental algum, como se os mapas dos países realmente existissem sobre o nosso planeta, que na verdade é uno e não há salvação ambiental enquanto os estragos ecológicos não forem atribuídos aos seus principais responsáveis e todos enxergarem os limites planetários.

Portanto, fim do desmatamento somente quando sairmos da economia submetida a crescimento exponencial, baseada em desperdício e ineficiência, cujas tecnologias só servem para piorar as varáveis críticas.  Precisamos usar as tecnologias existentes mas esquecidas para reverter o ataque da humanidade contra os ecossistemas e estabilizar os danos dos quais já teremos consequências inevitáveis, devido ao atraso e a permanência do estrago feito no planeta. 

Dessa guerra contra os ecossistemas jamais sairemos ilesos, vide a maior extinção em massa de espécies animais e vegetais da história desse planeta em curso hoje e é muita ingenuidade achar que tal extinção não irá se voltar contra os causadores.  O pior desse extinção é que ela é endógena, não é um asteróide que está para colidir com a Terra, está sendo fabricada pelo nosso sistema econômico linear, degenerativo e infinito, dentro de um planeta finito, regenerativo e circular.  Está sendo mantido por uma mentalidade econômica ensinada para 100% dos estudantes de economia, pela qual se acredita corajosamente que a Terra é um subsistema da economia.  Nem precisamos dizer que a finalidade tautológica do crescimento pelo crescimento não tem como objetivo nenhum trazer ganhos sociais e ambientais para a humanidade, o que é mais pecaminoso.

O fim do desperdício de alimentos que terminam no lixo, por exemplo, já seria suficiente para alimentar 2 bilhões de pessoas por um ano.  Disseminação de nutrição saudável e de produção local de alimentos com princípios bio-orgânicos tem o poder de reduzir em 80% o impacto nos ecossistemas e alimentar muito mais pessoas.

Revisão do sistema de transportes, saindo do extremo da economia global (produção há milhares de quilômetros) para produção local, com o fim de viagens aéreas e no lugar vídeo-conferências, além de trocar turismo global por turismo local com a finalidade das comunidades se conhecerem mais e se preservarem tem um poder de redução do impacto sobre os ecossistemas não menor.

O fim do lixo, que é mantido graças aos lucros polpudos que abastecem empresas e empreiteiras, também teria o poder de reduzir o impacto de forma vultosa.

Enfim, é preciso achar outro modelo no lugar do modelo atual da casa-carro-viagem-ao-exterior que determina as vidas sem sentido e comezinhas da população humana que vive esse modelo e
daqueles muitos ou a maioria que desejam vivê-lo, sem saber que jamais conseguirão, por mais que eudeusem as celebridades inventadas.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Impossível crescer num planeta finito, mas...

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Mais um para o imaginário frequente de (i) temos um problema com a impossibilidade de manter crescimento infinito num planeta finito, mas (ii) temos a solução, qual seja, basta mudar a forma do crescimento e não a idéia em si mesma: http://www.oeco.org.br/guardian-environment-network/28594-nao-tema-o-crescimento-ele-nao-e-mais-o-inimigo-do-planeta.  Se para a primeira colocação não há muita dúvida entre os que se dizem “novos economistas”, para a segunda há visões completamente distintas, na sua maior parte ilusórias, sobre como tratar essa questão.  Os conceitos são tão vagos e tão descolados do conhecimento científico verdadeiro na física, na biologia, na tecnologia, na ecologia, que apesar de evidente contradição com os resultados apontados pela realidade, essa visão distorcida da realidade sobrevive e se dissemina, alimentada claro por algo que Aristóteles já tinha avisado a todos: “Quando nossos interesses estão em foco, somos os piores juízes das nossas ações.”

O texto do The Guardian replicado para o O ECO é esse tipo de argumento que afasta de vista qualquer crítica ao paradigma de crescimento e modelo de consumo. Podemos continuar crescendo e consumindo que nem loucos suicidas, sem apreço algum pela coletividade, porque estamos tendo ganhos de eficiência, sinais de mercado e novas tecnologias.   Seguem acreditando que o planeta é infinito, que a oferta brota do nada e que a tecnologia, nas palavras de Roegen, irá recriar o Jardim do Éden na Terra.  Apesar dessa crença infundada, não há um só estudo de variáveis críticas planetárias que não mostre deterioração contínua até hoje.   Desde o Millenium Ecossystem Assessment, Limits to Growth e outros estudos importantes, alguns secretos que só agora estão vazando, a situação só tem piorado.   Será que eficiência resolve e podemos ignorar que as florestas que sobraram como as de Borneo estão sendo destruídas?  A de Borneo está sendo solapada para produzir óleo de palma para a indústria de coméstico global.  Podemos crer que eficiência e tecnologia resolve tudo apesar da água estar desaparecendo de vastas regiões importantes de produção agrícola, desde a China, até Brasil e Estados Unidos?

No texto alucinado publicado no The Guardian, extraio alguns comentários interessantes:

Huhne claims: "The UK economy has doubled in real terms since 1985, but total energy consumption is exactly the same as it was in that year."  This is in fact dead wrong. "Official statistics indicate that the UK's greenhouse gas emissions have fallen over the last twenty years - partly because it now produces more electricity from gas than coal. But a new report from government adviser the Committee on Climate Change (CCC) finds that once imports and exports are taken into account, the country's emissions are 80 per cent higher."

A esse respeito lembro de ter lindo um livro brasileiro de autor brasileiro que falava a mesma besteira. Corrigiu, acrescentando que realmente não há evidências de tal melhora.  Esse segundo comentário é bem mais direto:

Where to begin?

1. GDP is rigged. Some jurisdictions are including prostitution, and not just the financial kind.
2. GDP "increase" is going to the richest, not the median.
3. Lots of things are more energy efficient, true. But most are not repairable, and must be thrown away every few years. That costs energy too.
4. The world is heating.
5. The oceans are dying.
6. The manufacturing centres are highly polluted.
7. Not to worry - correcting these things will increase the GDP.
8. The electric grid will not tolerate the higher loads which would result from every vehicle being electric. Somebody will have to improve that. Read copper.
9. Every industrial commodity is getting harder to extract. More steel for a drilling platform, more oil to transport lower grade ore. That is an exponential process, and it is exponentially bad.

But not to worry, you have made me feel SO good.

A esse respeito, não só Piketti, mas Janet Yellen no seu testemunho do Senado ouviu a seguinte pergunta de um senador: “A senhora não se incomoda com o fato de 99% da expansão da renda no período pós-recessão (desde junho de 2009) ter sido apropriada pelo 1% mais rico?”  Não preciso comentar mais nada.  Lógico que essa concentração de renda não preocupa quem está sendo beneficiado por ela e que, não por acaso, desconhece que não há um só exemplo na história da humanidade de tal processo não ter causado um colapso social.

Essa lógica tem uma equação que não fecha: a maturidade atual de economias saturadas que transferiram produção pesada e de energia para países poluidores não pode ser replicada por vastas populações carentes do Brasil, da China, da Índia que querem copiar seus modelos de carros, casas, viagens aos exterior e consumo desenfreado de qualquer coisa inútil e desnecessária que inventaram para nosso deleite (nem vamos comentar que as tecnologias que fariam uma lâmpada durar 100 anos e um pneu de carro durar 1000 anos foram destruídas, assim como a obsolescência programada está funcionando a todo vapor nessa economia do jogar fora que transformou a Terra, nossa casa maior, em uma enorme lixeira...).

Sei que é óbvio, mas o que está acontecendo em um país não necessariamente é possível de ser extrapolado para o planeta inteiro. E o argumento é muito simples.  Se os países ricos tivessem que produzir tudo que precisam (100%) dentro dos seus territórios, já estariam vivendo um colapso ambiental à la Ilha de Páscoa há muitas décadas.  Imaginem EUA e Reino Unido como únicos territórios da Terra e o resto só oceano e pensem: como esses países estariam, tendo destruido quase 100% das suas florestas, consumindo vastas quantidades dos recursos inclusive água de outros territórios que agora, nesse planeta hipotético não tem como ser suprido?  O colapso ambiental das economias maduras só foi evitado pela exportação dos descalabros ambientais para além das suas fronteiras e com até alguma economia recente, como se o planeta Terra não fosse uno...  Essa contrapartida das suas importações tem visibilidade zero no nosso sistema de preços derivado do nosso sistema de valores torpes. Transformar a Amazônia em monocultura tem custo zero na ideologia dominante atual, embora só um serviço seu, formação de água da América do Sul, requer energia equivalente a de 50.000 Itaipus. Imagina a fila de “consumidores” pagando por isso tudo.

Podemos até escamotear a realidade com idéias absurdas e seguir acreditando nelas, mas não conseguiremos mudar os resultados.  Caminhamos para um colapso civilizatório com risco de fim da vida na Terra enquanto mantivermos a idéia de medir nossas atividades por mais atividades, por crescimento que se justifica apenas por mais crescimento.  Enquanto medirmos bem estar pela quantidade de bens e comida que passam pelas mãos dos seres humanos ou sua satisfação pela renda e por aí vai, a lista de erros de crenças é infinda, além das soluções propostas serem cada vez mais inadequadas.  O bem estar humano além de não estar assegurado por essas vias, agora corre um rismo maior, por esfacelar as bases de sustentação da vida.

Sugiro a leitura de Serge Latouche e Erik Assadourian.  Do Erik Assadourian, esse texto muito mais lúcido mostra essa diferença de visões:  http://archleague.org/2013/10/degrowing-our-way-to-genuine-progress/

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A necessidade de crescer a qualquer custo continua...

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Encaminho esse texto para avaliação de todos: http://www.voxeu.org/sites/default/files/Vox_secular_stagnation.pdf

O bastião do pensamento econômico continua firme na “necessidade de crescer a qualquer custo e acabar com a estagnação secular que explica a situação atual muito mais que uma específica crise financeira (a de 2008).”  Não conseguem imaginar que o erro pode estar exatamente no início, c´est-à-dire, na necessidade de crescer a qualquer custo.

Lembrei que Lawrence Summers não aceitou o gráfico de Herman Daly no Banco Mundial que colocava a economia como um subsistema da Terra.  Dessa forma é fácil essa pseudo-ciência concluir que qualquer de suas propostas se ajusta perfeitamente bem (no mito da) com sustentabilidade.  Nessa visão o sistema econômico não tem vinculação nenhuma com o meio ambiente do planeta onde se insere.  No final do texto podem dizer: “e esse sistema encontra-se em Marte” e nenhuma conclusão se alterará.  Claro que é uma fantasia.

Estranhar? Claro que não, nos livros de Macroeconomia a principal assertiva anida é “os recursos da natureza são totalmente irrelevantes para o processo econômico.” É isso que aprendem ainda hoje muitos alunos incautos, apesar de tanto blablablá de sustentabilidade.

Como temos visto com certa frequência entre as pessoas que ainda pensam, crescer a qualquer custo, sob qualquer artifício imaginário (carros elétricos, energia limpa, mecanismos de desenvolvimento limpo, energia nuclear “limpa”, etc.) é uma impossibilidade física num planeta finito, principalmente em termos de matéria, outro mito largamente difundido pelo qual só teríamos problema de energia.  Muitos acreditam que ao assegurar uma fonte infinita e limpa de energia (outro imaginário com várias restrições tecnológicas), podemos pensar então em construir os mais dois ou três planetas que iremos precisar para esse modelo.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Situação da água no estado de São Paulo e do Rio de Janeiro

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Prezados estudiosos, professores, cientistas, profissionais de várias áreas, amigos,
Não sei por onde começar, mas a situação da água em São Paulo parece assustadora.  Imagina o colapso que irá resultar caso a estação de chuvas seja fraca no final desse ano.  Imagina o que já está acontecendo com um sem número de famílias nos municípios já atingidas por um racionamento de água.  Falta de água é muito pior, dizem os especialistas, do que falta de energia, em termos de impacto nas atividades econômicas, principalmente urbanas. O que podemos fazer?
Em primeiro lugar, se queríamos uma prova do erro dramático do sistema econômico atual de crescimento contínuo, completamente irracional, que agrega atividades geradoras de PIB mas desagregadoras do ponto de vista socioambiental, dentro de um espaço finito que é a Terra, agora temos:  crise hídrica num dos maiores conglomerados populacionais do planeta (figura 1). Como é possível aumentar a demanda exponencialmente por um recurso finito como a água (e também pelos serviços ecológicos, solo)?  Ganhos tecnológicos têm limites e a menos que pretendamos alcançar a proeza de produzir do nada, os ganhos de eficiência foram e serão sempre superados pela escala produtiva anormal, com piora também exponencial de todas as variáveis críticas dos sistemas de sustentação da vida.  Para economia ecológica a questão da água é um desafio que deveria ser abraçado com paixão: quais são as causas? quanto o evento climático em São Paulo extremo explica? o que poderia ter sido feito? qual a recomendação futura de forma geral?  Os reservatórios estavam em queda desde 2010, sabemos que destruição de mananciais, desmatamento, destruição de nascentes, o rodoanel na APA Bororé, a falta de investimentos para conter a perda de água no sistema de distribuição e desperdício alucinante dos consumidores tudo isso contribuiu para germinar essa crise.  O extremo climático pode ter sido a pá de cal num processo cujo resultado talvez não seria diferente disso, só um pouco mais distante no tempo.
Figura 1
Agora sabemos que não é só o reservatório da Cantareira (abastece 45% da população munícipe de São Paulo, figura 2) que está crítico, mas outros também e não é só no município, mas no estado inteiro e também no Rio de Janeiro.  E não é só água, na parte de geração de energia também há riscos.  Enquanto continuarmos estudando economia pelo fluxo do PIB, que não tem conexão alguma com o meio ambiente do qual depende, considerando a Terra um subsistema da economia que não vê limites ecológico-planetários, o resultado não será diferente.  Não dá mais para acreditar não haver limites ao crescimento material e aumento contínuo de demanda por energia.  A atividade sócio-econômica tem que ser vista do ponto de vista de fluxo de matéria e energia e seus impactos sociais acima de tudo, porque sem salvação social não haverá salvação ambiental.  Por esses fluxos sabemos que só há duas opções pela frente: ou desmaterializamos a economia ou desmaterializamos a vida.  Optamos até agora com o pé no acelerador pelo segundo: estamos no meio da maior extinção em massa da vida desse planeta de forma endógena, sempre com a enorme ingenuidade de achar que essa extinção jamais irá se voltar contra os causadores.  Na biologia somos todos um.
Figura 2
Água é um recurso finito. Para aumentar esse recurso precisaríamos de uma nova chuva de meteoros durante milhões de anos.  Esses dois períodos de chuvas de meteoros de milhões de anos ocorreram na história da Terra quando a vida não existia e nossa espécie animal só chegou aqui quase no último segundo. Somos claramente irrelevantes para o planeta e a filosofia do “nunca morri” não deve continuar.  Enquanto escrevo esse email, significa que não morri, mas significa que não morrerei um dia?  O planeta nunca expulsou a humanidade, significa que nunca expulsará?  A irracionalidade desse sistema baseado em desperdício, ineficiência e no jogar fora, tudo submetido a crescimento exponencial, com cidades tendo mais nascimento de carros do que de bebês e com a população aumentando 300.000 habitantes por dia, já descontados os mortos, é muito evidente para acharmos que podemos continuar nessa mesma trajetória sem nada mudar.   Será que a situação da água não pode nos ajudar a revisar o atual paradigma econômico, a teoria econômica falsa e despertar em nós a consciência que devemos ter sobre a nossa relação como espécie animal nesse planeta?  John Maynard Keynes escreveu que “no longo prazo todos estaremos mortos”.  Nicholas Georgescu Roegen criticou essa frase ao dizer que “como espécie animal somos praticamente imortais.”  Isso para lembrar a questão moral de não continuar agredindo a capacidade do planeta sustentar a vida com um sistema econômico em rota completa de colisão com a Terra.   Não adianta inventarmos mais nomes (economia verde, economia do meio ambiente, sustentabilidade, mecanismos de desenvolvimento limpo, etc.), porque não existe economia sem ser verde, sem envolver o meio ambiente e não existe ausência de sustentabilidade.  Se nosso sistema atual insistir nessa rota de colisão, o planeta irá restaurar a sustentabilidade à nossa revelia e sem a nossa presença.  Como Roegen disse “seremos capazes de entregar a Terra ainda banhada em sol apenas à vida bacteriana”, afirmação depois referendada pelos estudos de paleontologia sobre o atual processo de extinção.
O sistema econômico tem que mimetizar a natureza: (i) deixar de ser linear, para ser cíclico, (ii) deixar de ser degenerativo,  ineficiente e com enorme desperdício de matéria e energia para ser regenerativo, eficiente, e (iii) deixar de ser infinito ou submetido a crescimento exponencial infinito para ser finito, tal como é a Terra, enxergando os limites ecológicos.   Deixar de concentrar riqueza e renda para atender as necessidades humanas com mais oportunidades para todos. Isso requer abandonar as métricas estéreis a favor de mensurações que façam uso do conhecimento que temos de biologia, física, sociologia e ecologia, uma multidisciplinaridade.  Nada pode ser mais estéril que o conceito do PIB.  Mesmo para medir o bem estar social, embora seja a única justificativa desse ataque contra o planeta.
Não é hora de arregaçar as mangas? Ou podemos esperar mais evidências?

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Development without Deforestation - Desenvolvimento sem Desmatamento

Por favor se comentar deixe um email para contato.

Vai para minha lista de leitura num futuro espero não muito distante.



Espero que o texto tenha respondido a seguinte pergunta:

Não é possível desenvolvimento, nos moldes atuais, baseado em crescimento econômico eterno de estruturas e populações humanas, sem desmatamento desenfreado à luz do que já ocorre hoje em várias partes do mundo, com os últimos ataques indo para Ásia, África, Canadá e ainda Brasil, cuja pretensão do setor agrícola é expandir a fronteira agrícola na Amazônia, conforme afrouxamento de legislação pertinente e seminários promovidos pelo “agribusiness”.  Ou seja, tal resultado só é possível com uma revisão total do modelo e teoria econômicos que não enxergam nenhum limite ecológio ou físico para suas pretensões de expansão contínua.

Os únicos lugares sem desmatamento na Terra hoje são onde já se desmatou tudo que era possível e agora conseguem manter e reflorestar com matas secundárias com a ajuda do comércio global, transferindo produção suja para países sem compliance ambiental algum, como se os mapas dos países realmente existissem sobre o nosso planeta, que na verdade é uno e não há salvação ambiental enquanto os estragos ecológicos não forem atribuídos aos seus principais responsáveis e todos enxergarem os limites planetários.

Portanto, fim do desmatamento somente quando sairmos da economia submetida a crescimento exponencial, baseada em desperdício e ineficiência, cujas tecnologias só servem para piorar as varáveis críticas.  Precisamos usar as tecnologias existentes mas esquecidas para reverter o ataque da humanidade contra os ecossistemas e estabilizar os danos dos quais já teremos consequências inevitáveis, devido ao atraso e a permanência do estrago feito no planeta. 

Dessa guerra contra os ecossistemas jamais sairemos ilesos, vide a maior extinção em massa de espécies animais e vegetais da história desse planeta em curso hoje e é muita ingenuidade achar que tal extinção não irá se voltar contra os causadores.  O pior desse extinção é que ela é endógena, não é um asteróide que está para colidir com a Terra, está sendo fabricada pelo nosso sistema econômico linear, degenerativo e infinito, dentro de um planeta finito, regenerativo e circular.  Está sendo mantido por uma mentalidade econômica ensinada para 100% dos estudantes de economia, pela qual se acredita corajosamente que a Terra é um subsistema da economia.  Nem precisamos dizer que a finalidade tautológica do crescimento pelo crescimento não tem como objetivo nenhum trazer ganhos sociais e ambientais para a humanidade, o que é mais pecaminoso.

O fim do desperdício de alimentos que terminam no lixo, por exemplo, já seria suficiente para alimentar 2 bilhões de pessoas por um ano.  Disseminação de nutrição saudável e de produção local de alimentos com princípios bio-orgânicos tem o poder de reduzir em 80% o impacto nos ecossistemas e alimentar muito mais pessoas.

Revisão do sistema de transportes, saindo do extremo da economia global (produção há milhares de quilômetros) para produção local, com o fim de viagens aéreas e no lugar vídeo-conferências, além de trocar turismo global por turismo local com a finalidade das comunidades se conhecerem mais e se preservarem tem um poder de redução do impacto sobre os ecossistemas não menor.

O fim do lixo, que é mantido graças aos lucros polpudos que abastecem empresas e empreiteiras, também teria o poder de reduzir o impacto de forma vultosa.

Enfim, é preciso achar outro modelo no lugar do modelo atual da casa-carro-viagem-ao-exterior que determina as vidas sem sentido e comezinhas da população humana que vive esse modelo e
daqueles muitos ou a maioria que desejam vivê-lo, sem saber que jamais conseguirão, por mais que eudeusem as celebridades inventadas.